A CHANTAGEM
Nivaldo Rocha
Quando Paulo entrou para a política, após ter se formado em Direito na Faculdade São Francisco, em São Paulo, jamais iria imaginar por quais dificuldades teria que passar.
Passou no exame da OAB com facilidade e começou a advogar
Mas os sonhos de um estudante de Direito eram bem diferentes da realidade. Não se deu bem com a profissão de advogado, não por falta de habilidade, mas porque viu que não iria se sobressair.
Foi assim que resolveu entrar para a Política, e nisso ele se deu bem:
Elegeu-se consecutivamente Vereador, Deputado Estadual e Deputado Federal. Agora era Senador, eleito para o segundo mandato.
Foi quando começaram seus problemas. Quem ocupa um cargo no Governo Federal, seja eletivo ou executivo, fica à mercê da imprensa. Torna-se alvo dos jornais, rádio e televisão. Os repórteres políticos procuram devassar sua vida profissional; os colunistas sociais vasculham sua vida particular.
E era nesse ponto que Paulo era vulnerável. Solteiro, quarenta e três anos, eleito Senador pela segunda vez com uma votação extremamente favorável, era um homem atraente, muito charmoso, e bastante rico para atrair mulheres nem sempre recomendáveis.
Mas, com tudo isso, homem considerado um bom partido, não se interessava por mulheres casadouras, de quem fugia como o diabo da cruz. Desconfiava sempre que elas queriam dar o golpe do baú! A partir dessa sua atitude é que começam os problemas dele.
Havia em Brasília uma senhora de nome Ruth, que assinava importante coluna social de um jornal proeminente daquela capital. Por alguma razão que fugia ao entendimento do Senador, a colunista não gostava dele.
Essa mulher era uma pedra no sapato de todos os políticos, mas em particular, do senador Paulo Nogueira. Quando ele não saía de casa à noite, a coluna social anunciava no dia seguinte: “Senador Paulo mal de saúde. Não tem sido visto no convívio social”. Por outro lado, se ele saía com uma mulher bem mais jovem que ele, a colunista anunciava: “Quem será a moça misteriosa que vem saindo com o Senador Paulo Nogueira? Seria uma filha, produto de um pecado inconfessável?” O pior foi quando ele foi visto algumas vezes com um amigo de São Paulo, moço de bons atributos físicos. A coluna anunciou: “Senador Paulo Nogueira agora deu para se acompanhar por belos rapazes...”
Assim estava o clima de Brasília para o Senador. Mas ele também passava muitos dias no Rio de Janeiro, onde tinha muitos amigos. E é nesta bela cidade que chegamos agora.
— Estou chegando agora. Meu nome é...
— O senhor já está sendo esperado, Senador. Já temos o apartamento de sua preferência reservado para o senhor.
O Luxor Hotel é muito conhecido no Rio e também preferido por Paulo, por ser muito reservado e pouco frequentado por políticos. Ali ele era muito conhecido e bem recebido pela sua maneira de tratar os funcionários. O Luxor era dotado de ótimos apartamentos, ficava na praia de Copacabana, e tinha um excelente restaurante internacional.
Paulo fez o registro, instalou-se, tomou seu banho, e depois telefonou para seu amigo Wilson, um deputado federal fluminense, para marcar uma saída à noite.
— Wilson, eu acabei de chegar. Que tal a gente pegar uma boite hoje à noite?
— Boa ideia! Acabei de descobrir uma nova casa noturna, um lugar discreto, bom para pessoas do nosso meio. Lá vão alguns casais que não querem ser observados e algumas moças avulsas também.
— E onde é que fica essa preciosidade? — interpelou Paulo.
— Você está no Luxor, como sempre?
— Estou.
— Pois a casa noturna fica mesmo perto daí. No posto cinco.
O Luxor fica na praia de Copacabana, no posto seis.
— Então podemos ir a pé mesmo. — comentou Paulo.
— É verdade. Fica combinado então. Passo pelo hotel às onze e meia da noite.
— Não. Passe antes, assim nós podemos jantar aqui no hotel mesmo.
— Combinado. Lá pelas nove e meia eu passo por aí.
A casa noturna que Wilson havia descoberto, chamava-se Buraco Quente, e, sem dúvida, era bem animado.
Duas moças foram convidadas à mesa de Paulo e Wilson. Tomaram algumas bebidas, dançaram e se divertiram.
Conversavam animadamente quando, em dado momento, lá pelas duas da madrugada, Wilson chamou a atenção de Paulo:
— Veja quem está naquela mesa.
— Onde?
— Ali, à sua direita. Mas olhe disfarçadamente, porque vai levar um susto.
Olhando discretamente, Paulo viu então de quem se tratava: nada mais nada menos que Ruth, a fofoqueira. Mas não estava só.
Um intervalo aqui, para explicar a situação. Ruth era uma mulher casada, e se orgulhava de declarar aos quatro ventos que era bem casada. Tinha uma reputação inabalável em Brasília. Constava que era jornalista por devoção. Não precisava trabalhar. Isso porque o marido era alto funcionário federal, com altos salários. Por essa razão ela era respeitadíssima, às vezes até temida.
Porém a verdade é que lá estava ela acompanhada. E não era pelo marido! O acompanhante era um jovem de seus vinte e cinco anos, com todo o jeitão de gigolô. Ela estava lá pela casa dos quarenta anos. E o casal fazia um par muito romântico: um olhava enternecidamente para o outro, consumindo um champanhe estrangeiro. E os dois estavam de mãos dadas, — ah que coisa linda — e com os dedos entrelaçados!...
Paulo ficou feliz da vida. Levantou-se e foi para a entrada da toalete, onde estava o fotógrafo da casa. Conversou com ele rapidamente. Dali a pouco o fotógrafo saiu a campo e fotografou Ruth e seu acompanhante de mãos dadas e em atitude comprometedora. Aproveitou, conforme instruções de Paulo, e fotografou mais alguns casais em outras mesas, só para disfarçar. Todas essas fotos foram encomendadas por Paulo, que as receberia no hotel, no dia seguinte. Em seguida, voltou para sua mesa e conversou uns dez minutos com o amigo.
Depois disso levantou-se de novo.
— Aonde você vai? — perguntou Wilson.
— Cumprimentar a fofoqueira, claro.
— Você está louco?
— Pelo contrário. Espere só para ver. — Paulo estava muito calmo.
Sem ouvir os protestos do amigo, Paulo encaminhou-se para o casal, desvencilhando-se das pequenas mesas no seu caminho. Parou na frente de Ruth e cumprimentou:
— Boa noite dona Ruth. Mas que surpresa agradável!
Ela olhou, prestou atenção através da penumbra, e, quando percebeu quem estava à sua frente, enrubesceu até o calcanhar...
— Boa noite. — disse ela encabulada. Ficou a olhar do Senador para o seu par, sem saber o que fazer.
— A senhora não vai me apresentar o seu amigo? — perguntou Paulo, aguardando de pé. — Ou talvez me convide para sentar à sua mesa.
Ruth não teve outro jeito senão apresentá-los:
— Senador Paulo Nogueira. Este é o Dr. Eduardo de Souza, arquiteto. Dr. Eduardo este é o Senador Paulo Nogueira.
Arquiteto uma merda, mais parece um gigolô barato. — pensou Paulo.
— Amigo do Arquimedes? — era o nome do marido dela. — Muito prazer.
O rapaz também estava bastante sem jeito. Ruth indagou:
— Em que hotel o senhor está hospedado, Senador?
— No Luxor.
— Que coincidência, eu também estou hospedada lá.
— Que sorte heim? — comentou Paulo.
Como não havia mais nada a dizer, e tendo perdido seu interesse momentâneo, despediu-se com um aceno e afastou-se.
Ao voltar à sua mesa, comentou com Wilson:
— Essa idiota vai esperar que eu saia, depois, não dou dez minutos e ela vai me procurar no hotel.
Divertiu-se ainda durante uma meia hora e depois, despedindo-se do amigo e das moças, encaminhou-se ao seu hotel.
O Rio, uma cidade bastante quente, aquela noite estava mais quente do que de costume.
Paulo não gostava de ar condicionado. Preferia dormir com a janela aberta.
Agindo premeditadamente, vestiu apenas uma cueca para dormir. Nesse instante o telefone tocou. Era da portaria.
— Doutor, uma hóspede pediu-me o número de seu apartamento e eu dei. Acho que ela está indo procurá-lo, porque o elevador parou no seu andar. O senhor me desculpe...
— Não se preocupe, está tudo bem.
Logo em seguida uma batida se fez ouvir na porta. Atendeu do jeito que estava vestido: de cueca. Era Ruth, como ele esperava.
— Oh! Que surpresa! Desculpe-me o traje, pensei que era o copeiro. — afastou-se para vestir um roupão. — Pois não dona Ruth, posso servi-la em alguma coisa? — ele frisou no dona.
— Obrigada, Senador. Eu gostaria de um uísque, se for possível. — ela estava visivelmente preocupada e nervosa.
Paulo foi calmamente ao refrigerador, serviu duas doses de Old Parr com duas pedras de gelo em cada copo. Fez isso vagarosamente, como num ritual. Voltou com copos na mão e ofereceu um à sua interlocutora, à sua frente.
Após uns três goles ela falou:
— Senador, o senhor não sabe como estou envergonhada. — torceu as mãos — Aquele rapaz não passa de um amigo...
— É claro. Foi isso mesmo que pensei. E por que é que a senhora resolveu me visitar a essa hora?
— O senhor naturalmente não vai dizer a ninguém o que viu não é?
— Eu não tenho nada a ver com a vida particular de ninguém. Por que eu deveria me preocupar com a sua vida? Naturalmente (repetiu a expressão dela), se é seu amigo, deve ser amigo de seu marido também.
— É isso mesmo — disse ela aliviada.
— Seu marido até gostaria de saber que a senhora está bem acompanhada nesta cidade horrível, cheia de assaltantes e tudo o mais... Além disso não vejo o que possa me impedir de contar a alguns colunistas, concorrentes seus!... Aliás, não sei se a senhora percebeu, mas foi fotografada junto de seu amigo. Quem será que mandou tirar aquela foto?!...
Com essa ela engasgou com o uísque e foi preciso que Paulo a ajudasse com alguns tapas nas costas, nos quais ele exagerou com visível intenção.
Depois de algumas encenações ela se conteve e voltou ao normal. Esperou um pouco, enquanto Paulo tomava uns goles de bebida.
— Senador, — ela tentou um ridículo sorriso sedutor — eu faço qualquer coisa para que o senhor esqueça este caso. — e acentuou — Qualquer coisa mesmo...
Este caso está ficando divertido. — pensou Paulo. Disse:
— Olha, dona Ruth, como é que eu posso sentir alguma amizade pela senhora? A sua coluna só publica a meu respeito coisas que só servem para denegrir o meu nome. Isso vem me causando muitos problemas. Até já colocou em dúvida a minha masculinidade!...
— É a minha profissão. Além disso se eu falo sempre no senhor é porque eu lhe tenho uma grande admiração, e também pelo seu trabalho.
Dizendo isso, cruzou as pernas e tentou um sorriso cativante, deixando à mostra umas coxas gordas e joelhos horrivelmente grossos.
— O senhor não acha melhor a gente negociar? — insistiu ela, insinuando-se para sentar-se mais perto dele.
Paulo estava surpreso. Nunca pensou que ia ser tão divertido. Estava saboreando o momento. Não gostava de desprezar quem quer que fosse, mas Ruth bem merecia aquela lição. Disse:
— Preste bem atenção ao que eu vou dizer. Eu não gosto de você e posso lhe garantir que isso nunca virá a acontecer. Eu poderia lhe dar uma fofoca para a sua coluna, mas você está proibida de tocar no meu nome em sua coluninha de merda: Eu não gosto de velhotas (frisou a última palavra maldosamente). Eu aprecio mesmo são as meninas de dezoito anos!
Ruth, a temida, ficou muda. As palavras não saíam.
— Agora — disse ele — pode se retirar. Não quero mais saber de seu nome nem da sua presença desagradável.
Ela saiu tropeçando, soltando chispas pelos olhos.
No dia seguinte Paulo comprou do fotógrafo uma fotografia bem comprometedora da fofoqueira, com o negativo. Custou um pouco caro, mas valeu a pena.
Ruth ainda tentou, na sua coluna do jornal, falar bem dele, para ver se conseguia uma conciliação, mas Paulo enviou-lhe uma cópia da fotografia, sem endereço do remetente. Ela deve ter entendido, porque, pelo que eu fiquei sabendo, nunca mais o Senador Paulo Nogueira teve problemas com a tal colunista... * © *

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